Entre 2022 e 2024, 42,5% das empresas portuguesas com 10 ou mais trabalhadores afirmaram ter feito algo inovador: um novo produto, um novo processo, um projeto de I&D interno, ou até uma ideia tentada e depois abandonada. Isolado, o número soa a uma economia saudável e inovadora. Olhado de perto, conta outra história: um pico da era pandémica que ainda está a regressar à terra.
A inovação disparou quando as empresas se apressaram a sobreviver aos confinamentos e a cadeias de abastecimento interrompidas, e depois começou a recuar. As grandes empresas (250 ou mais trabalhadores) inovam a um ritmo quase duplo da média nacional, e dois setores, informação e comunicação, e atividades financeiras e de seguros, puxam essa média para cima. A despesa total atingiu os €4.865 milhões em 2024, face aos €3.382 milhões em 2022, mesmo com uma fatia cada vez menor de empresas dispostas a participar.
A inovação não subiu em linha reta. Disparou durante os anos da pandemia, impulsionada quase só pela inovação de processo (empresas a mudar à pressa a forma como operavam), e depois começou a devolver esse ganho.
Os 42,5% escondem uma distribuição muito desigual, por dimensão da empresa e por setor.
A dimensão da empresa não está só correlacionada com a inovação — é provável que a torne possível. As grandes empresas conseguem absorver o custo de um projeto de I&D falhado ou de um produto que nunca chega a lançar-se; as pequenas muitas vezes não conseguem. As habilitações académicas contam uma história parecida: em 2024, 9,8% de todas as empresas portuguesas eram simultaneamente inovadoras e maioritariamente compostas por trabalhadores com formação superior. Entre as empresas sem qualquer trabalhador com formação superior, essa fatia era de 4,5% — menos de metade.
Face ao inquérito anterior, a atividade de inovação caiu em quase todos os setores da economia portuguesa. A indústria foi a única exceção (o único setor a registar um aumento).
Eis o paradoxo: mesmo com menos empresas a inovar, o país como um todo gasta mais nisso, e esse dinheiro concentra-se em duas regiões.
Parte dessa despesa é ambiental: 25,4% das empresas introduziram uma inovação com algum benefício ambiental, e o dinheiro por trás dela — €1.448,3 milhões — representou 29,8% de tudo o que Portugal gastou em inovação em 2024. Essa divisão importa por causa do que as não-inovadoras dizem sobre si próprias: entre as empresas que já inovam, 16% dizem simplesmente não sentir necessidade de fazer mais; entre as que não inovam de todo, essa fatia mais do que duplica, para 34,5%. Para uma grande parte das empresas portuguesas, ficar parado não é um problema de recursos — é uma escolha.
Quando as empresas portuguesas protegem o que constroem, recorrem sobretudo à marca registada em vez da patente. Registar uma marca é rápido e barato; patentear uma invenção não é nem uma coisa nem outra.
É uma economia de empresas sobretudo pequenas, a inovar em surtos curtos e práticos, a proteger o pouco que constroem com a ferramenta mais rápida e barata disponível — em vez de fazerem a aposta mais lenta e arriscada que uma patente exige. A história da inovação portuguesa não é uma linha reta ascendente; é um pico induzido pela crise que ainda está a regressar à terra. A pandemia provou que as empresas portuguesas conseguem mudar depressa quando não têm alternativa. Se continuarão a mudar agora que têm uma é a pergunta que este inquérito ainda não consegue responder.
Dados & créditos
Reportagem, análise e gráficos: Afonso Rodrigues. Fonte: INE / DGEEC, Inquérito Comunitário à Inovação (CIS) 2022–2024, publicado a 10 de julho de 2026. Amostra: 15.813 empresas, 13.581 respostas válidas.